O menino e a pipa
Carlota se apaixonou. Não queria. Nunca quis, mas aconteceu. Acordou cedo. Olhou a janela . Não quis rezar. Deus a traíra. Vestiu um agasalho de moleton preto. Escovou os dentes olhando no espelho o próprio olhar vazio. Murcho. Desconsolou-se, meneou a cabeça. O que fazer? Já tinha feito. Enfrentaria qualquer coisa. Covardia era demais. Não tinha jeito. Abriu mão do amor. Agasalho de moleton preto não dá. É sexta-feira. Queria colocar um agasalho branco. Branco na sexta-feira traz paz. Sexta-feira é dia de branco, mas não tinha um agasalho de moleton branco. Então não ia caminhar de agasalho. Vestiu jeans e camiseta. A camiseta era branca. Já era alguma coisa. Calçou meia e tênis, devagar, sem pressa, assim o tempo passa mais rápido. Queria tanto avançar alguns anos. Não tinha controle. Tomou café com leite na grande xícara branca. O café a reconfortava, café com leite. Branco. Precisava clarear a vida. Comeu uma torrada mesmo não tendo vontade, pois era preciso. Ia caminhar, precisava de alguma energia.
Saiu Carlota colocando os fones de ouvido, ajeitando o iPhone no bolso (os fios escondidos por dentro da camiseta branca) e impondo força de vontade nos passos sem destino. Dobraria a esquina à esquerda, mas na encruzilhada mudou de ideia. Foi para a direita, subida acima; para quem estava a principio sem vontade alguma de se exercitar, surpreendeu-se por tomar o rumo mais dificil.
Assim, a cada passo a disposição ia aumentando e ela sentiu que poderia ir um pouco além do que havia planejado. A música que agora começava lhe causou desconforto, enfiou a mão no bolso e avançou para a próxima; os primeiros acordes provocou-lhe uma onda fria. Novo avanço. O metal pesado tilintou nos ouvidos. Assim é melhor, rock dos bons, das antigas, bem composto, letra com conteúdo, atemporal.
Paixão é para os fracos.
Contente por ter encontrado um meio de voltar a ouvir música, sem sentir tristeza, Carlota avançou em sua caminhada. Buscava saúde e sentido. Saúde fazia sentido. Sentido, talvez não fosse saudável. Não corria a vida, de qualquer maneira, à revelia?
Mas não era justo.
Queria entender. Precisava encontrar uma explicação. No meio do furacão que começava a se formar em sua mente, ouviu uma vozinha fraca, quase um sussurro.
Carlota parou.
Olhando de baixo com as mãozinhas estendldas um menino muito pequeno, de uns quatro anos insistia:
_Você sabe empinar pipa?
A mãozinha rechonchuda segurava um barbante amarrado em uma sacola de mercado.
_Oi?
_Você sabe empinar pipa?
A sacola estava inerte. Não havia vento.
O olhar do menino misturava inocência, esperança e pobreza.
Carlota sentiu vontade de abraçá-lo.
Mas não sabia mais como empinar uma pipa. Alguém lhe roubara a alegria.
Meneou a cabeça.
O menino saiu correndo arrastando a sacola pelo barbante.
Uma lufada de vento apareceu e ergueu um bom tanto a pipa improvisada.
O menino sorriu feliz.
Carlota seguiu o seu caminho.
Sentido pra que?
Carlota se apaixonou. Não queria. Nunca quis, mas aconteceu. Acordou cedo. Olhou a janela . Não quis rezar. Deus a traíra. Vestiu um agasalho de moleton preto. Escovou os dentes olhando no espelho o próprio olhar vazio. Murcho. Desconsolou-se, meneou a cabeça. O que fazer? Já tinha feito. Enfrentaria qualquer coisa. Covardia era demais. Não tinha jeito. Abriu mão do amor. Agasalho de moleton preto não dá. É sexta-feira. Queria colocar um agasalho branco. Branco na sexta-feira traz paz. Sexta-feira é dia de branco, mas não tinha um agasalho de moleton branco. Então não ia caminhar de agasalho. Vestiu jeans e camiseta. A camiseta era branca. Já era alguma coisa. Calçou meia e tênis, devagar, sem pressa, assim o tempo passa mais rápido. Queria tanto avançar alguns anos. Não tinha controle. Tomou café com leite na grande xícara branca. O café a reconfortava, café com leite. Branco. Precisava clarear a vida. Comeu uma torrada mesmo não tendo vontade, pois era preciso. Ia caminhar, precisava de alguma energia.
Saiu Carlota colocando os fones de ouvido, ajeitando o iPhone no bolso (os fios escondidos por dentro da camiseta branca) e impondo força de vontade nos passos sem destino. Dobraria a esquina à esquerda, mas na encruzilhada mudou de ideia. Foi para a direita, subida acima; para quem estava a principio sem vontade alguma de se exercitar, surpreendeu-se por tomar o rumo mais dificil.
Assim, a cada passo a disposição ia aumentando e ela sentiu que poderia ir um pouco além do que havia planejado. A música que agora começava lhe causou desconforto, enfiou a mão no bolso e avançou para a próxima; os primeiros acordes provocou-lhe uma onda fria. Novo avanço. O metal pesado tilintou nos ouvidos. Assim é melhor, rock dos bons, das antigas, bem composto, letra com conteúdo, atemporal.
Paixão é para os fracos.
Contente por ter encontrado um meio de voltar a ouvir música, sem sentir tristeza, Carlota avançou em sua caminhada. Buscava saúde e sentido. Saúde fazia sentido. Sentido, talvez não fosse saudável. Não corria a vida, de qualquer maneira, à revelia?
Mas não era justo.
Queria entender. Precisava encontrar uma explicação. No meio do furacão que começava a se formar em sua mente, ouviu uma vozinha fraca, quase um sussurro.
Carlota parou.
Olhando de baixo com as mãozinhas estendldas um menino muito pequeno, de uns quatro anos insistia:
_Você sabe empinar pipa?
A mãozinha rechonchuda segurava um barbante amarrado em uma sacola de mercado.
_Oi?
_Você sabe empinar pipa?
A sacola estava inerte. Não havia vento.
O olhar do menino misturava inocência, esperança e pobreza.
Carlota sentiu vontade de abraçá-lo.
Mas não sabia mais como empinar uma pipa. Alguém lhe roubara a alegria.
Meneou a cabeça.
O menino saiu correndo arrastando a sacola pelo barbante.
Uma lufada de vento apareceu e ergueu um bom tanto a pipa improvisada.
O menino sorriu feliz.
Carlota seguiu o seu caminho.
Sentido pra que?
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