quinta-feira, 22 de março de 2012

Os leitores do Alfredo Parodi


OS LEITORES DO ALFREDO PARODI

O primeiro dia de estágio finalmente chegou. Não é a primeira vez que vamos para a sala de aula, praticar o que estudamos na teoria durante meses, mas a apreensão e um certo nervosismo é sempre inevitável. Se esta prática é a oportunidade de conhecermos as particularidades da profissão escolhida, é, também, um desafio. Cada semestre uma turma, cada turma uma expectativa diferente. Quarenta alunos matriculados é um desafio e tanto. Ensinar leitura é desafio dobrado. 
Sem sabermos o que vem pela frente, quem serão os alunos, como nos receberão ou o que esperam de seus novos professores, deixamos que o amor pelo ato de ensinar supere as dificuldades e cheios de entusiasmo, partimos para a missão que nos aguardava. Para facilitar, resolvemos dividir a turma em duas.  Cada sala para duas duplas de estagiários cheios de inspiração.
Chegamos cedo. Nos braços, livros, materiais didáticos preparados por nós mesmos e caixinhas com gizes brancos e coloridos, nos dão coragem, como as espadas encorajam os heróis dos filmes e das histórias em quadrinhos. No coração, o desejo de despertar a paixão pelo conhecimento e, quem sabe, fazer a diferença na vida escolar dos alunos, é a mola que nos impulsiona.
Entramos na sala, cheios de expectativas, mas o que vimos nos deixou perplexos. Espalhados, longe uns dos outros, como separados por uma muralha invisível, não mais que meia dúzia de carinhas apreensivas nos olhavam com um misto de curiosidade, indiferença e, tivemos impressão, até com algum desdém. Nesse momento, o desânimo foi inevitável. Ainda assim, fizemos a divisão: três alunos por turma.
Tentando não demonstrar desapontamento, procuramos saber um pouco mais da turma, porque tão poucos alunos na sala, quantos de fato estavam matriculados, quais as expectativas deles. Poucos responderam as perguntas e quase desistimos, mas fomos em frente e ministramos a aula como havíamos programado. Descobrimos tristes, que nenhum daqueles alunos haviam lido sequer um livro em suas vidas. Um deles, admitiu ter lido um gibi em certa ocasião. Aproveitamos a deixa e falamos da importância do estudo na formação do cidadão e do quanto a leitura é essencial para esse aprendizado. Porém não houve participação e a primeira aula chegou ao fim com a triste impressão de que, de tudo que falamos, nada foi apreendido, nada teve importância.
Saímos realmente desanimados. Não tem jeito, falou um dos colegas, eles não estão interessados em aprender. Não é isso, disse outro, eles trabalham durante o dia e vêm para aula cansados, não conseguem aprender. Eles são inteligentes, falou um terceiro colega, vamos insistir, eles saberão aproveitar a oportunidade. E, assim, meio divididos, fomos para casa tentando imaginar como seria a aula seguinte.
Durante toda a semana trabalhamos no projeto da próxima aula; foi necessário algumas adaptações devido a pouca quantidade de alunos. Chegamos ao colégio e o desânimo por parte de alguns professores era visível, quase palpável. Mas a missão tinha que ser cumprida e, empunhando livros, pastas com material didático e a caixinha de gizes coloridos, à essa altura, mascote dos novos docentes, entramos na sala convictos, mas temerosos.
A surpresa gerou alegria. Não só havia o dobro de alunos na sala, como haviam sorrisos. E os olhares, agora eram de expectativa. Sugerimos a reunião das carteiras e eles concordaram, interessados. A aula começou e dessa vez houve participação. Todos os alunos, alguns ainda tímidos, leram a lição em voz alta. Sentimos então grande alegria, sentimos que, apesar das dificuldades – alguns trabalham, alguns fazem outro curso - aqueles meninos, faziam a diferença, eram esforçados, se interessavam sim pelos estudos,  e queriam seguir em frente, tinham um sonho e nossa missão era contribuir, minimamente que fosse, para a realização desse sonho.
Apenas essa mudança de comportamento de nossos alunos, sem dúvida já valeria a pena, mas quando um dos meninos, tirou de dentro da mochila e exibiu um livro emprestado da biblioteca, a alegria ficou completa. Quem nunca lera uma página sequer de um livro, havia lido agora, uma metade inteira. Ficamos realmente felizes.
A semente está plantada, os primeiros brotos já rompem a terra, não demorará a nascer os primeiros frutos.

Nilce Silva

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